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dennis holloway

Soube que era arquitecto quando tinha oito anos, mas, tal como qualquer criança da década de 50, nunca imaginei que o instrumento que iria utilizar no meu trabalho fosse um computador. Naquele tempo, meu conceito de computador era uma máquina do tamanho de uma sala ilustrada na minha enciclopédia.

Desde os primeiros anos da minha infância sinto-me fascinado pela arquitectura dos povos indígenas americanos. Mas, onde cresci, no condado de Shiawassee, no Michigan, não me recordo de alguma vez ter visto um único objecto dos edifícios ou povoações originais que os índios Chippewa construíram, tal era o poder transformador da actividade agrícola moderna da Península Baixa do Michigan. Mesmo assim, costumava vaguear pelas florestas e campos próximos de Durand em busca de algum vestígio de que os índios Chippewa ali tivessem vivido. A biblioteca da escola não ajudava em nada: dispunha apenas de um livro sobre arquitectura intitulado "As Sete Maravilhas da Antiguidade".

Embora meus professores de arquitectura fossem todos modernistas, a maior parte da minha carreira profissional pautou-se por princípios diferentes. Ao buscar a verdadeira arquitectura americana - edifícios que crescem organicamente desta terra -, tive a sorte de conhecer muitos génios indígenas americanos que me demonstraram, com sabedoria, existir um idioma de arquitectura indígena americano tão diferente do europeu como o europeu é diferente do asiático, africano ou australiano. Trata-se de uma linguagem da arquitectura moldada por séculos de experimentação e de experiência das condições climáticas e micro-ambientais dos continentes americanos. Este idioma indígena da arquitectura afigura-se-me a única forma adequada de falar de abrigo no lugar a que eles chamam Ilha da Tartaruga...

Em 1973, durante o primeiro embargo do petróleo árabe, comecei a investigar formas arquitectónicas baseadas em energias alternativas, ou seja, modos de aquecer e refrigerar edifícios que não dependessem dos combustíveis fósseis. A utilização de energia solar constituía a solução mais óbvia e não era nenhuma novidade, pois já era utilizada em todo o mundo há mais de trinta séculos. Descobri que a aplicação dos conhecimentos relacionados com a energia solar ao processo de concepção arquitectónica emprestou uma nova vitalidade e contemporaneidade à minha arquitectura. Creio que a concepção de uma arquitectura que minimize a sua dependência em relação aos combustíveis fósseis constitui a melhor resposta que um arquitecto pode dar à crise ambiental global, incluindo o "efeito de estufa" causado pelas emissões de dióxido de carbono. O meu próprio trabalho e a minha investigação persuadiram-me de que, para a maior parte do mundo, os requisitos energéticos de condicionamento do espaço dos edifícios poderão ser drasticamente reduzidos pela utilização passiva de energia solar. Foi a receptividade demonstrada pelos indígenas americanos em relação à minha arquitectura solar que me levou em 1990 a trabalhar com eles no Novo México.

Fiquei surpreendido por ver na região setentrional do estado do Novo México tantas ruínas arquitectónicas dos índios pré-históricos, ainda visíveis na paisagem. Ver as ruínas destes admiráveis edifícios e aldeias foi como tomar contacto pela primeira vez com a paisagem cultural de um continente. Desde então, à guisa de passatempo, tenho estudado estes edifícios sempre que consigo arranjar algum tempo livre, pelo que se tornaram uma importante inspiração para a minha actividade profissional, aqui, no sudoeste dos Estados Unidos. O trabalho que aqui mostro inclui várias reconstruções em realidade virtual de maravilhosos lugares índios que já cessaram de existir, com excepção dos montes de escombros e das paredes desmoronantes, autênticos despojos de uma catástrofe ainda envolvida em mistério. Sempre que posso deitar as mãos a dados arqueológicos concretos - cálculos das medidas das paredes e dimensões verticais com o número de pisos - construo no meu computador Macintosh um modelo tridimensional do lugar e, em seguida, recorrendo a um processo electrónico denominado "ray tracing", fotografo e animo o modelo. O software que utilizo para construir e reproduzir todos os modelos é o VIDI Presenter Professional, com a sua intensa curva de aprendizagem de um ano. Em 1990, cheguei à conclusão que os instrumentos manuais já não se prestavam ao que eu pretendia, pelo que enveredei de cabeça pelo ciberespaço. Foi assustador? Não. Pela primeira vez, é como se o meio e o desenhador se tivessem transformado num só: o meio é o desenhador.

Ainda hoje, quando, pela noite fora, trabalho nos meus modelos de realidade virtual ou quando elaboro um projecto em CAD para os meus clientes indígenas americanos (e sem querer soar de forma estranha), assalta-me bastantes vezes a sensação de que os espíritos dos construtores destes magníficos lugares observam-me por cima do ombro direito e guiam o rato do meu Macintosh, ajudando-me a visualizar e a retratar em realidade virtual o que era para eles a construção de uma grandiosa aldeia. É para mim uma honra e um privilégio partilhar convosco os seus ensinamentos.

Dennis Holloway

em Santa Fé, Novo México, USA, 1997


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