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emanuel dimas de melo pimenta
O cosmos criado no passado pela concepção urbana ou por rituais religiosos é subitamente substituído por um transdiagrama resultante da comunicação global. Um complexo pulverizado na lógica dos projectos arquitecturais, enquanto concepção sináptica.
Pela primeira vez, um cosmos é essencialmente desmaterializado!
Uma nova ordem revelada pela origem etimológica da palavra "cultura": o termo indo-europeu *kowl, que significa "cercar uma presa", como acontece durante uma caçada. Isto sugere também que a aspiração máxima de um tal sistema - sua máxima significação - nunca poderá ser alcançada, desmascarando sua condição de permanente revolução!
A cultura não constitui mais que o instrumento humano ideal de auto-defesa contra a ordem natural. Caso contrário, o conceito de crime não poderia existir! A arte, por sua vez, emerge como um antídoto da cultura. Por outro lado, a religião (submersa nos sentidos de religare e relegere) assumiu o sentido de justificação natural face à ordem natural.
Contudo, a humanidade criada pela imprensa de Gutemberg deu lugar, noutro estádio da civilização, a outra entidade humana, a que René Berger chamou "teleantropos". Pela primeira vez na história humana, as relação sociais não são estabelecidas com base na proximidade física. O Jus Soli e o Jus Sanguinis tornaram-se obsoletos e contraditórios. Um mundo feito de ethos especializados, departamentalizados em espaços territoriais fechados, cede lugar a um ethos planetário, volátil e turbulento. Uma humanidade já não constituída por minorias, mas sim por inumeráveis médias entrelaçados. Um ser humano não estereotipado formatado por quantidades astronómicas que acabam por redesenhar esta formidável entidade à nano-escala - uma desmaterialização da cultura material que afecta todo o espectro do comportamento humano.
Em última análise, a cultura material implica uma concepção sensorial, pelo que esta desmaterialização aponta também para outras questões fundamentais como a levantada, na década de 1970, por Décio Pignarati sobre a "luz sólida", a qual "nascida" com o impressionismo e a invenção da fotografia, ascendeu ao mundo do desenho computorizado para criar a idéia de "presentificação do tempo". Tal como a pedra constituía, para a antiga arquitectura, o interconector temporal por excelência, a luz converteu-se, no virar do segundo milénio, no presentificador temporal ideal.
Neste universo, nossos sentidos passaram a ser projectados, não como extensões, mas como verdadeiras próteses sensoriais. Neste sentido, desde finais da década de 1970, tenho trabalhado a arquitectura como representação directa da formação plástica de patterns sinápticos através de inputs e outputs sensoriais - arquitectura como inteligência viva. Novos princípios religiosos, uma nova condição do sagrado e novos espaços para nossos sentidos, na arte e na cultura.